Como saber se o tratamento do câncer está funcionando?

Sente-se bem, mas o exame assustou? Entenda por que os sintomas enganam, o que são os critérios RECIST, os marcadores tumorais e como a oncologia moderna avalia o tratamento do câncer.

Como saber se o tratamento do câncer está funcionando?

Já abordei esse tema no nosso blog lá em 2018, mas a oncologia viveu uma revolução silenciosa de lá para cá. Com a explosão da imunoterapia e das terapias-alvo, a forma como nós, oncologistas, avaliamos o sucesso de um tratamento mudou drasticamente.

Uma das maiores fontes de ansiedade no consultório é o período entre a primeira infusão (ou comprimido) e a primeira bateria de exames de reavaliação. Como sabemos se estamos ganhando a batalha? Vamos traduzir os laudos médicos e entender o que realmente importa.

1. O Paradoxo dos Sintomas: Sentir-se mal não significa falha

É muito intuitivo pensar que se você está se sentindo fraco ou com dores, a doença está piorando. Na oncologia, isso é frequentemente uma armadilha.

Muitos tratamentos sistêmicos têm efeitos colaterais intensos. Você pode se sentir cansado, enjoado ou dolorido simplesmente pela toxicidade da medicação, enquanto o tumor, silenciosamente, está "derretendo". Da mesma forma, uma melhora rápida na energia pode ser apenas o efeito dos corticoides usados de suporte, e não necessariamente o controle da doença. Sintomas ajudam a guiar o cuidado, mas não são o juiz final do tratamento.

2. O Termômetro do Sangue: Marcadores Tumorais

Antes de pedir imagens, costumamos avaliar o sangue. Marcadores tumorais (como PSA no câncer de próstata ou CEA no câncer de intestino) são proteínas frequentemente produzidas pelas células cancerígenas.

  • A vantagem: Uma queda sustentada nesses números costuma ser o primeiro sinal precoce de que o tratamento está no caminho certo.
  • O alerta: Eles não são perfeitos. Inflamações benignas, infecções ou até mesmo a morte rápida das células tumorais podem fazer os marcadores subirem temporariamente, gerando pânico desnecessário. É por isso que um marcador isolado não dita a conduta clínica.

3. A Fotografia e o Filme: Exames de Imagem e PET-CT

Para ter certeza do que está acontecendo, precisamos olhar para dentro do corpo. E é aqui que a tecnologia moderna faz toda a diferença:

  • Tomografia e Ressonância: Mostram a anatomia. É como tirar uma fotografia da lesão para ver o seu tamanho exato em centímetros.
  • PET-CT: Mostra o metabolismo. O paciente recebe uma glicose levemente radioativa que "acende" onde há grande consumo de energia. É possível que, em uma tomografia, o tumor continue do mesmo tamanho (pois restou apenas uma cicatriz de tecido morto), mas no PET-CT ele já não brilhe mais. O "filme" parou.
PET-CT (esquerda) avaliando o metabolismo. Fonte: mr.suphachai praserdumrongchai / Getty Images

4. A "Régua" do Oncologista: Entendendo o RECIST

Quando você lê o laudo de um exame, o radiologista está utilizando um critério internacional chamado RECIST (Critérios de Avaliação de Resposta em Tumores Sólidos). É uma régua padronizada para medir as lesões. O RECIST divide os resultados em quatro cenários possíveis:

  1. Resposta Completa: O cenário ideal. Todas as lesões visíveis desapareceram por completo nos exames de imagem.
  2. Resposta Parcial: Houve uma redução significativa no tamanho dos tumores (geralmente, uma diminuição de pelo menos 30% na soma das maiores lesões).
  3. Doença Estável: O tumor não sumiu, mas parou de crescer. Atenção: Na oncologia e nos planos de longevidade, manter uma doença antes agressiva totalmente paralisada por anos é uma enorme vitória clínica!
  4. Progressão: O tumor cresceu significativamente (aumento de 20% ou mais) ou surgiram novas lesões. É o sinal técnico de que precisamos trocar a estratégia de combate.

5. A Grande Pegadinha Moderna: A Pseudoprogressão

Se você está fazendo imunoterapia, essa é a informação mais valiosa que você vai ler hoje. Diferente da quimioterapia tradicional, que tenta destruir o tumor diretamente, a imunoterapia "treina" o seu próprio sistema imunológico para atacar o câncer.

O que acontece quando o seu exército de células de defesa (linfócitos) invade o tumor para destruí-lo? O tumor incha devido à inflamação intensa.

Se fizermos uma tomografia nesse exato momento, o tumor parecerá maior. Pelas regras antigas, acharíamos que o tratamento falhou e a doença progrediu. Mas, na verdade, o tumor está apenas inflamado sendo destruído de dentro para fora. Chamamos isso de pseudoprogressão (falsa progressão). É exatamente por isso que, hoje, precisamos de exames seriados e muita experiência clínica antes de suspender um tratamento inovador.

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