A jornada final: Lidando com a terminalidade, os medos e a promessa da eternidade
Inspirado no caso do influencer Lito, este texto traz uma reflexão médica e cristã sobre a terminalidade do câncer, o fim da vida e a esperança na eternidade.
Quando acompanhamos figuras públicas queridas, como o influencer Lito, enfrentando de peito aberto e com tanta vulnerabilidade a realidade de um diagnóstico irreversível, algo muda dentro de nós. Casos assim quebram o silêncio sobre um tema que a nossa sociedade tenta a todo custo esconder: a terminalidade.
No consultório oncológico, o momento em que precisamos conversar com um paciente e sua família de que a doença não pode mais ser curada é, sem dúvida, o mais desafiador. As emoções que surgem são um turbilhão: medo do desconhecido, tristeza pela separação, raiva pela perda de controle e, muitas vezes, uma profunda angústia espiritual.
Sentir tudo isso é profundamente humano. Mas como podemos olhar para essa fase da vida sem sermos esmagados pelo desespero?
O peso da palavra "Terminal"
Para o paciente com câncer, a transição para os cuidados paliativos exclusivos muitas vezes soa como um abandono, mas é exatamente o oposto. É o momento em que o foco do cuidado deixa de ser a doença e passa a ser, inteiramente, a pessoa. É o cuidado para garantir ausência de dor, dignidade e tempo de qualidade com quem se ama.
Ainda assim, o coração se inquieta. É nesse ponto que a medicina encontra o seu limite e precisamos olhar para algo maior para encontrar sentido.
A visão bíblica: A tenda e a verdadeira casa
Na tradição cristã e na visão bíblica, a morte nunca foi planejada para ser o fim da história, mas sim uma vírgula. A Bíblia não mascara a dor do luto — o próprio Jesus chorou diante da morte do amigo Lázaro —, mas ela nos oferece uma perspectiva de eternidade que muda tudo.
O apóstolo Paulo usa uma metáfora muito simples e bonita: ele compara o nosso corpo físico a uma "tenda" (ou barraca). Uma tenda é frágil, temporária, desgasta-se com o vento e com o tempo. Quando o corpo adoece e se aproxima do fim, é como se essa tenda estivesse sendo desmontada. No entanto, a promessa bíblica é que, quando essa habitação terrena é desfeita, temos um "edifício da parte de Deus, uma casa eterna nos céus".
Fomos feitos para outro lugar
A angústia que sentimos diante da morte acontece porque, no fundo, sabemos que não fomos feitos para acabar. O livro de Eclesiastes diz que Deus "colocou a eternidade no coração do homem".
Grandes pensadores cristãos, como C.S. Lewis, traduziram esse sentimento de forma brilhante. Ele argumentava que, se nós encontramos em nós mesmos um desejo que nenhuma experiência neste mundo consegue satisfazer — como o desejo por uma vida sem dor, sem perdas e sem fim —, a explicação mais provável é que fomos criados para um outro mundo.
Nessa perspectiva, o fim da vida não é um mergulho no escuro. É, na verdade, o amanhecer. É o momento de deixar as "Terras Sombrias" deste mundo passageiro e finalmente entrar no país verdadeiro, para o qual sempre fomos destinados.
Um dia de cada vez
Se você ou alguém que você ama está enfrentando a terminalidade de um câncer agora, meu conselho médico e humano é: não tente carregar o peso do futuro todo de uma vez. A Bíblia também nos ensina a buscar a graça para o dia de hoje (o "pão nosso de cada dia").
Concentre-se no hoje. Diga as palavras que precisam ser ditas: "Eu te amo", "Me perdoe", "Eu te perdoo", "Obrigado". A terminalidade tira a ilusão de que temos todo o tempo do mundo, mas, paradoxalmente, pode nos dar a oportunidade de vivermos os dias mais profundos, verdadeiros e cheios de significado de nossas vidas, ancorados na esperança de que o melhor ainda está por vir.